Ele se vestiu e disse que tava indo embora. Ok, hanny, já aprendi a costurar as cicatrizes. “Mas não volto dessa vez”. Quando olhei pra trás pude vê-lo ainda calçando os sapatos, arrumando distraidamente o cinto da calça e ajeitando a gola da camisa. A gente gostava de beber na chuva, de trepar a tarde toda e passar os domingos assistindo filmes antigos da Bette Davis. Mas ele resolveu ir embora. E eu fiquei aqui, nessa sala vazia, segurando as taças, ensaiando os passos do próximo fado. “Tem uns discos teus aí, não vai levar?.” Sempre ficam algumas tralhas pra trás, livros, discos, casacos, lembranças incrustadas nos espelhos, fios de cabelo, pentelhos. Ele se abaixou e eu até senti uma pressão na nuca. Na dele. Olhei pra cima e vi o quadro que fica bem na frente do sofá. Quando eu ficava de costas, com ele metendo por trás, sempre espiava o quadro pelo espelho. Era uma vila, tinha uma estrada que fazia uma curva e não acabava mais. Ele curtia me surrar ás vezes, não muito. Eu gostava. Agora ele tava lá, no meio da sala, impotente. “Quem é que vai embora agora, heim, bonitão?” Ninguém me disse que amor antigo pesava tanto. Eu o agarrei pelas pernas e fui arrastando pra fora da sala. Coloquei o corpo sentado naquela poltrona do escritório, uma vermelha, macia, meio retrô… “Eu te amo, sabia? Ninguém pode ir embora assim, do nada.” Já fazia nove anos que a gente tava junto e ele disse que não me amava mais. Mas eu amava o canalha, amava pra cacete. Peguei um charuto, acendi e coloquei entre os seus lábios, ficou até parecido com uns dos galãs que contracenavam com a Bette Davis naqueles filmes P&B. Passei a noite toda olhando pra ele ali, sentado, fumando seu charuto preferido. Quando amanheceu liguei pra polícia. “Seu sargento, ontem eu matei um cara”. “E como foi isso minha senhora?”. Em poucos minutos o cerco tava fechado em frente de casa, a caminho da delegacia lembrei daquele filme “The Letter”, da Bette, mas eu não estava tão glamorosa quanto ela, eu nunca estive. Lembrei também do sangue dele escorrendo… era um sangue quase morno. Naquele instante a morte apareceu pra mim como um sorriso que quase acontece, como uma porrada que amolece, uma garrafa vazia que a gente esquece na porta da geladeira.
Fodaço!
Beijo
Acho que Bette Davis gostaria de filmar isso.
Esse é um elogio desconcertante. rs. Obrigada.