Existe um instante entre a noite e a madrugada
em que os lobos saem das suas tocas
e passeiam aparentemente dóceis
entre as minhas pernas
eles roçam a pelagem macia
um pouco acima da panturrilha
causando um arrepio que sobe até a nuca
fazendo-me inclinar levemente o pescoço para a esquerda
e pensar em coisas como
poemas sujos – bares inóspitos – poças d’água
em acessar o lado proibido das coisas
Existe um instante entre a noite e a madrugada
em que eu subo nas costas do maior e mais feroz dos lobos
rumo à confusão de pernas e lençóis e fronhas despedaçadas
como pétalas de um buquê dado às pressas
Existe um instante entre a noite e a madrugada
em que um lobo chega até mim
com um brinquedo estranho entre os dentes
propondo-me um tipo de acordo que eu jamais poderia cumprir
Mas existe um instante entre
Então eu cedo.
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