Disseram-lhe que seria pior a cada vez. A gente se apega aos cantos e aos passos, pressente o rangido estridente do portão e o latido do vira latas. Ele sempre volta, com as botas surradas e um maço de cigarros pela metade; corta a cidade de ponta a ponta e pensa em arrasar arranha céus ou dinamitar hotéis de luxo. Ela sempre espera, com uma panela farta de esperança em cima do fogão e um aventalzinho sujo em volta da cintura. Ele sempre deixa a porta aberta, e sempre sai em dias de feira, sempre quando acabam os cigarros e a paciência. Deve caminhar pelas praças, tragar um rabo de galo a cada esquina e comprar águas de colônia para as putas. Ela nunca fede, toma banho religiosamente no intervalo entre o jornal nacional e a novela das oito. Ele gosta de comer sopa de feijão sentado na poltrona. Disseram-lhe que os cigarros nunca realmente acabaram, só a paciência. E ela apalpando os corredores tentando adivinhar a cor da nicotina nos dentes do marido, tentando escutar o rangido surdo, o latido rouco, o berro contido como cordas vocais na guilhotina.

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