A Murilo e os revolucionários

Junto com o outono
vieram os vikings
os marujos
toda sorte de bárbaros
e piratas
As ruas estão um tanto em pânico
um tanto em festa
Busco semblantes familiares
entre os escombros de medo e alegria
Uma estrutura de concreto armado
sustenta meu coração no alto
Vejo corpos translúcidos, lindos
carregados por guindastes
alguns estão mortos
Os vivos celebram a ignorância
de seus grilhões
com adoráveis bolas de ferro
atadas ao tornozelo
Meus olhos são duas granadas
meus pulmões são artefatos de guerra
palavras são como projéteis que se enchem de pólvora
antes de explodirem em chamas sobre a cidade
Atravesso o elevado Costa e Silva
um senhor tira confetes do cabelo de sua namorada
Na República uma criança chora
suas bolas de gude confundiram-se com estilhaços
Mendigos, putas, traficantes, poetas, operários,
estudantes, bêbados, atrizes e filósofos
todos foram convocados para essa formidável festa de despedida
os demais permanecerão em suas trincheiras
buscando a sorte em jogos de azar
colecionando peças amputadas da realidade
dobrando a esquina enquanto uma horda de revolucionários
escreve o poema do século em plena praça pública.

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