Archive for the 'texto' Category

eterno

Eternidade é o telefone que não toca

é o barulho do portão que se fecha

o olhar pousado na nuca de quem vai embora

Eternidade é o movimento de duas línguas

conhecendo a travessia uma da outra

é o tempo que o suor dele leva

pra secar nas minhas costas

Eternidade é aquilo que dura um final de semana

Breve é uma vida inteira.

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AVISO: ESTE É UM TEXTO DE FICÇÃO

É o que estava escrito do lado de fora do envelope. Caixa alta. Dentro um roteiro. Ele não estava lá. Quer dizer, até estava, mas como uma espécie de figurante bonitão e relapso. E eu esperando uma jornada do herói, porque essa história precisava muito de um clímax. Um clímax, eu disse, não essa coleção de anticlímax em que transformaram a minha vida. Por isso pedi para trocarem os roteiristas. Dei instruções claras: mais Walt Disney menos Arriaga. Isso da mocinha se foder no final só é legal nos livros e nas telas de cinema. Na vida real a gente pode se dar bem de vez em quando. Eu acho. Por isso pedi pra trocarem os roteiristas.

Bem, parece que trocaram. Senti uma reviravolta e novas tramas foram criadas. Agora todo cuidado é pouco. Peço que tomem muito cuidado com os diálogos e atentem para a trilha sonora (devo dizer que vocês mandaram muito bem com aquele chico buarque às dez da manhã do domingo, continuem assim).

Lembrem-se que as subtramas são fundamentais para a dinâmica da coisa, mas não exagerem.

Bem, o caminho é esse. Acho que vocês finalmente entenderam.

Ah, e quando quiserem dar um toque de tragédia, pensem no Woody Allen, gosto dele.

Grata,

tíquete

eu estava lá quando
todos deram as costas e
subiram no maldito avião
eu e meu lenço estúpido
eu e minha estúpida vontade de ficar
estou aqui só pra dizer que valeu a pena
não ter morrido de inanição
nessa ilha que carinhosamente apelidei
de inferno refrigerado
– uma homenagem clara a um dos meus autores preferidos –
não perdi essa mania e nenhuma outra
ainda saio distraidamente da mesa durante as refeições
ainda gosto de friccionar os lóbulos das orelhas e
tomar banhos quentes em dias abafados
espero que a viagem tenha sido boa
sonhos abandonados não cheiram bem
no compartimento de cargas.

Bilhete anônimo nº 5

Não mexam aqui. Uma dor, quando mexida, vira qualquer coisa entre a sombra e o desespero. Uma dor quieta fica bege. Não tem cheiro. Deixem-me amuada nesse canto onde vezemquando bate uma brisa, onde posso ouvir os amigos gargalhando, onde escuto ainda o eco de uma promessa contrabandeada às pressas na fronteira intangível dos sentidos.

notícias

as notícias vêm como cágados
lentas e inverossímeis
tem aquele segredo que eu não posso contar
tem você esquisitamente aparecendo nos meus sonhos
fico aflita esperando a janelinha piscar no meu computador
aquelas notícias que nunca chegam
eu mergulhando de novo em águas escuras
nem me perco mais, minha alma é abissal
será que você dá conta de me puxar pra cima
quando o fôlego acabar?

espelho

a nossa história podia ser
uma canção de Cole Porter
nós de mãos dadas na escadaria
de um cinema em Manhatan
ou escondidos num café francês
no bairro baixo de uma cidade grande qualquer
dois copos de Bourbon
e o torpor
seu nome ainda não passou nos créditos finais
desse filme triste

aviso

eu não pulei. mas foi como. não sei se foram tuas mãos. ou se enrosquei um pedaço do vestido propositalmente só pra fingir que sim, eram tuas mãos a me tirar dali. e teus braços e teus olhos e tudo mais aquilo que veio junto com você. tudo que veio junto e tudo aquilo que eu deixei você levar. sabe, eu sempre excedo o limite de bagagem.  eu sempre me excedo. transbordo. então, de certa forma, um pedaço de mim pulou e não há volta pra isso. vou pingando aos poucos se você deixar. ou escorrego de uma vez, me espatifo. não seria uma novidade pra mim.

chansón, champanhe e outros clichês

você aparecendo assim

rudimentar e improvável

dizendo chansón, champanhe e outros clichês

me levando pra jantar num japonês incrível

com cozinheiros lutadores de sumô

e poetas dadaístas

andando de mãos dadas por cima do elevado

costa e silva

quebrando a banca no jockey club

gastando todas as fichas na jukebox de um boteco no Bexiga

karaokê e batida de morango com leite condensado

pra lembrar a infância da boemia

você aparecendo assim

elegante e invisível

cometendo cafunés e carinhos sem nota fiscal.

pai

a criança inquieta arranca flores do canteiro e alguma erva daninha. estende a mão. sempre afoita, a criança precisa de um olhar à queima-roupa. incendiário. violento. terrível. um corpo de homenzarrão ao lado feito uma rocha. impenetrável.

*** Entrevista ***

No ar a entrevista com o La Carne.

http://www.aracatubanews.com/noticia.php?id_noticia=2245