O poeta não precisa do silêncio ( para Daniel Delatin)

Nem da guerra fria

Nem dos gritos sufocados

Nem do minuto

Nem da pausa

Nem do gesto que antecede o luto

O poeta não precisa de paz

Não precisa de lastro

Não precisa de nenhuma substância inflamável

Para arder em brasa e

Ir e voltar

Das cinzas

Diariamente

O poeta não precisa de chão

Não precisa de asas

Não precisa de animais de estimação

O poeta é impreciso

Incauto

Irracional

O poeta não colhe flores

Não frequenta funerais

Só estará presente naquele último sepultamento

De si mesmo.

Disseram-lhe que seria pior a cada vez. A gente se apega aos cantos e aos passos, pressente o rangido estridente do portão e o latido do vira latas. Ele sempre volta, com as botas surradas e um maço de cigarros pela metade; corta a cidade de ponta a ponta e pensa em arrasar arranha céus ou dinamitar hotéis de luxo. Ela sempre espera, com uma panela farta de esperança em cima do fogão e um aventalzinho sujo em volta da cintura. Ele sempre deixa a porta aberta, e sempre sai em dias de feira, sempre quando acabam os cigarros e a paciência. Deve caminhar pelas praças, tragar um rabo de galo a cada esquina e comprar águas de colônia para as putas. Ela nunca fede, toma banho religiosamente no intervalo entre o jornal nacional e a novela das oito. Ele gosta de comer sopa de feijão sentado na poltrona. Disseram-lhe que os cigarros nunca realmente acabaram, só a paciência. E ela apalpando os corredores tentando adivinhar a cor da nicotina nos dentes do marido, tentando escutar o rangido surdo, o latido rouco, o berro contido como cordas vocais na guilhotina.

O Gato

Queria te encontrar só pra ficar em silêncio contigo. Tomar, talvez, uns 4 ou 5 tragos de conhaque e nicotina, contemplar o caos e tentar desembaraçar um pouco teu coração dos meus cabelos.Quando eu cheguei à estação o trem já havia partido. Tudo bem. Eu me acostumei com as coisas sempre acontecendo sem mim; é que lá de trás, daquela mesa nos fundos do bar, não dá pra ver muita coisa. Só lembro de ter te visto passar, com uma sacola de livros e um gato morto dentro da valise. O gato eu só vi depois, quando você se sentou e perguntou que porra era aquela que eu tava lendo. “É um jornal, oras.” – respondi. E me espantei com o fato de um cara segurando uma valise ter se sentado na minha mesa. “Foi atropelado” – você disse. “Por um carro?” “Não, pela vida”. Só então descobri que há uma semana você não alimentava o animal. “Não gosto de plantas e nem de nada que respire tão quietamente”. Não sei por que, mas eu me apaixonei naquele momento. Logo depois você pagou a conta e disse “Vamos enterrar esse desgraçado!”. Era uma noite fria, e apesar de úmida a terra estava dura pra diabo fazendo com que eu arrebentasse algumas unhas. Acabado o serviço, você me jogou contra uma caçamba no meio dos escombros, entre baratas e ratazanas farejando carniça. Depois me levou de volta, pagou mais uma bebida e se foi, entediado. Eu ainda permaneço aqui, sentada e aflita nos fundos de um bar. Você partiu. Virou as costas e calmamente se foi, carregando na valise pedaços da minha devoção quieta e asfixiada.

(texto anterior a 2006)

Contrato (ou um presente fora de hora)

Existe um instante entre a noite e a madrugada

em que os lobos saem das suas tocas

e passeiam aparentemente dóceis

entre as minhas pernas

eles roçam a pelagem macia

um pouco acima da panturrilha

causando um arrepio que sobe até a nuca

fazendo-me inclinar levemente o pescoço para a esquerda

e pensar em coisas como

poemas sujos – bares inóspitos – poças d’água

em acessar o lado proibido das coisas

 

Existe um instante entre a noite e a madrugada

em que eu subo nas costas do maior e mais feroz dos lobos

rumo à confusão de pernas e lençóis e fronhas despedaçadas

como pétalas de um buquê dado às pressas

 

Existe um instante entre a noite e a madrugada

em que um lobo chega até mim

com um brinquedo estranho entre os dentes

propondo-me um tipo de acordo que eu jamais poderia cumprir

 

Mas existe um instante entre

 

Então eu cedo.

Ontem eu matei um cara

Ele se vestiu e disse que tava indo embora. Ok, hanny, já aprendi a costurar as cicatrizes. “Mas não volto dessa vez”. Quando olhei pra trás pude vê-lo ainda calçando os sapatos, arrumando distraidamente o cinto da calça e ajeitando a gola da camisa. A gente gostava de beber na chuva, de trepar a  tarde toda  e passar os  domingos assistindo filmes antigos da Bette Davis. Mas ele resolveu ir embora. E eu fiquei aqui, nessa sala vazia, segurando as taças, ensaiando os passos do próximo fado. “Tem uns discos teus aí, não vai levar?.” Sempre ficam algumas tralhas pra trás,  livros, discos, casacos, lembranças incrustadas nos espelhos, fios de cabelo, pentelhos. Ele se abaixou e eu até senti uma pressão na nuca. Na dele. Olhei pra cima e vi o quadro que fica  bem na frente do sofá. Quando eu ficava de costas, com ele metendo por trás, sempre espiava o quadro pelo espelho. Era uma vila, tinha uma estrada que fazia uma curva e não acabava mais. Ele curtia  me surrar ás vezes, não muito. Eu gostava. Agora ele tava lá, no meio da sala, impotente. “Quem é que vai embora agora, heim, bonitão?” Ninguém me disse que amor antigo pesava tanto. Eu o agarrei pelas pernas e fui arrastando pra fora da sala.  Coloquei o corpo sentado naquela poltrona do escritório, uma vermelha, macia, meio retrô… “Eu te amo, sabia? Ninguém pode ir embora assim, do nada.” Já fazia nove anos que a gente tava junto e ele disse que não me amava mais. Mas eu amava o canalha, amava pra cacete. Peguei um charuto, acendi e coloquei entre os seus lábios, ficou até parecido com uns dos galãs que contracenavam com a Bette Davis naqueles filmes P&B. Passei a noite toda olhando pra ele ali, sentado, fumando seu charuto preferido. Quando amanheceu liguei pra polícia. “Seu sargento, ontem eu matei um cara”. “E como foi isso minha senhora?”. Em poucos minutos o cerco tava fechado em frente de casa, a caminho da delegacia lembrei daquele filme “The Letter”, da Bette, mas eu não estava tão glamorosa quanto ela, eu nunca estive. Lembrei também do sangue dele escorrendo… era um sangue quase morno. Naquele instante a morte apareceu pra mim como um sorriso que quase acontece, como uma porrada que amolece, uma garrafa vazia que a gente esquece na porta da geladeira.

Cartão de embarque

Ainda não fiz as malas. Na realidade, não há nada para se levar daqui. Li num site de paradas esotéricas que esses constantes arrepios no couro cabeludo são claros sinais de um despertar espiritual, seguido de outros 50 sintomas como insônia, perda de peso e crescimento anormal das unhas dos pés. Eu te espero com a lealdade daquele cão que por 9 anos esperou seu dono em uma antiga estação ferroviária no Japão. Nenhuma bagagem. Nas mãos só um cartão de embarque  sem a taxa de seguro acidente.

lista

no duro,
sinto falta de 2 ou 3 coisas.
Um:
alguém sentado na poltrona lendo quadrinhos
e em seguida a sessão de esportes
eu passando um café na cafeteira italiana
que serve duas xícaras apenas
para duas pessoas que fizeram a difícil escolha
de tomar juntas duas xícaras de café
entre a pasta de dentes e o jornal diário
Dois:
filmes em preto e branco aos domingos
limas da pérsia
sorvete de creme e algum chá amargo fumegante
entornado próximo à varanda
onde cai uma garoa fria e intermitente
Três:
o sol escapando pela fresta da cortina
o jazz
eu tirando distraidamente o pó dos móveis
o sol chegando bem perto de uma nuca em repouso
as manhãs e tudo o que se esconde dentro delas.

telegrama

em tempo

com os dizeres

quero que você volte

para esse lugar onde nunca esteve

meu travesseiro

meu colo

dentro dos meus cabelos recém lavados

eu que nunca deveria ter saído

daquela banheira sem você

a telefonista não acredita nessas baboseiras

sou o pior tipo de romântica

do avesso, alcoolizada

tão cretina

tão senhora de coisa nenhuma

tão enfadonha

eu não deveria ter saído daquele carro

sem ao menos um retrato seu.

3×4

essas pequenas aves migratórias

que são meus braços

indo-vindo

na escuridão impiedosa da noite

esses dois pequenos morcegos

cravados no meio da cara

esse eterno conto de Edgar Alan Poe

o riff estridente das guitarras

o corpo que cai

os copos cheios de bourbon barato

tanto blues

tanto tanto

quando, enfim

preciso de tão pouco.

Don’t smoke in bed

Não olhe assim pra mim

como quem atira granadas a esmo

eu tenho vontade de secar todos os bares

porque há uma sede que me carrega irremediavelmente

para um beco sem saída

não tente nunca me fazer feliz

eu venho cantando uma canção triste há tempos

nem eu mesma entendi o sentido

desse catálogo de dores

não tente nunca soletrar a minha dor

seria como alguém flambando desabores

numa linda taça de sobremesa.

 

(publicado em “Seu heroi foi embora”, Yiyi Jambo, Paraguai, 2010)

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